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sábado, 12 de setembro de 2009

Páginas Da Vida


Àquele que nesse instante me lê,
"Lucília Maria Furtado Leiva, advogada por vocação, dona de casa por profissão. 57 primaveras, 4 filhos e, no último mês, completou suas Bodas de Pérolas. Não fez balé quando menina, teve peste na adolescência e só aprendeu a gostar de desenhos animados depois dos 30, junto com seu filho mais novo, pois na casa de seus pais televisão era exclusividade dos adultos. Singular por Lucília, mas pluralizada por Maria, trazendo, no nome e na vida, o estigma da Virgem Abençoada".
Em poucos termos, relato o que daria para preencher toda uma biografia, em longuíssimos 7 volumes. Não que eu seja imediatista, mas em meu ramo de trabalho, a única coisa que me enoja é a fugacidade da vida humana. Observar as pessoas se prendem às mundanidades, num ato de hedonismo exacerbado, mesmo sabendo-se que logo estarão em outro plano, me preserva em sanidade. Todavia, quando uma jornada me surpreende ou um momento se mostra digno, vale a pena contá-los, para que esses sejam preservados na memória da posteridade. Em toda sua vida mediana e religiosa, o instante que verdadeiramente merece atenção e prolongada pausa para uma narrativa em detalhes, fora a data em que Lucília conheceu o pai de seus filhos e, tomando as rédeas de uma possível futura relação, fez sua primeira e única declaração de amor.
Tudo começou há 40 anos, quando Lucília e algumas amigas estavam num baile dançante. Todas solteiras, algumas feministas sem sutiã e, certamente, a maioria louca por conhecer seu príncipe encantado, o qual poderia entrar pela porta do salão a qualquer momento, vestindo capote de couro e óculos escuros. Em um grupo tão homogêneo, ela era apenas mais uma adolescente que não sabia nada sobre as travessuras do amor, pois vinha de uma família carola e de costumes tradicionais. Sua mãe não tratava sobre assuntos do coração e seu pai pensava que suas filhas só teriam contato amoroso com um homem depois do casamento. Grande engano... Suas irmãs mais velhas, quando interpeladas, corriam a fazer o sinal da cruz e se afastavam, indo denunciá-la tanto ao Pai quanto ao pai. Nesses instantes, se a punição divina não aparecia, as palmadas paternas eram certas, para regozijo das irmãs.
Apesar da vigilância acirrada, Lucília já havia faz tempo descoberto às ocultas o pouco que lhe fora necessário na hora de se aproximar do futuro marido. Quando alguns rapazes em grupo estacionaram suas lambretas e entraram no baile, todas emudeceram, sem exceções. Lucília, com seus olhos de lobo sobre um rebanho de cordeiros, observava-os, coração acelerado, boca salivante, pensamentos libidinosos. Dizer que foi amor à primeira vista talvez seja clichê, mas foi a realidade. Todas cochichavam nervosamente e ela apenas analisava em silêncio os garotos, corpo vibrando na batida da música. Mesmo sem as dicas maternas, Lucília sabia que o homem o qual ansiava ter a seu lado até o resto de seus dias estava entremeado naquele grupo tão distinto. E não se enganou! De toda a turma, não desejou o mais belo nem o que dançava melhor... Optou por aquele mais discreto, que se esquivava pelos cantos e fez seu coração bater mais forte.
De um lado do salão, as garotas murmuravam e apenas esperavam que os meninos viessem buscá-las para dançar. Do outro lado, os rapazes bebiam, cantavam, riam muito e falavam alto, transmitindo uma falsa impressão de espontaneidade, como se eles realmente dominassem a situação, mas no fundo não passavam de garotos inexperientes. Foi nesse momento que Lucília quebrou toda a sincronia da cena e, transgredindo as regras, atravessou o salão. Enquanto todas esperavam, ela agia, valendo-se da timidez das demais. Foi diretamente a seu alvo e, com os olhos fixos, chamou-o para dançar. Parecia ser confiante, mas na verdade tremia por dentro. Entraram na pista e, ao som do piano, dançaram. Conversaram sobre tudo e, ao mesmo tempo, sobre nada, pois Lucília simplesmente regurgitava as palavras, sem prestar muita atenção ao que dizia. Sua mente estava numa viagem acelerada, aproveitando a sensação de estar pela primeira vez nos braços de um homem. Até o momento em que ele cheirou seu pescoço e ela estremeceu. Seu perfume foi a peça-chave naquela noite e nas que prosseguiram. Dançaram por mais um tempo, mais casais começaram a entrar na pista e a festa continuou. Quando seus pés já não aguentavam o salto, foram se assentar em uma das mesas. Agora sim conversavam...
Para Lucília, o sorriso dele era incrível, seu cabelo tinha um brilho natural perfeito e o sotaque de mineiro originalmente romântico. Cada detalhe dele que percebia e sentia fazia seu coração palpitar. As horas corriam e os sinos tocaram na torre da igreja, indicando a chegada de um novo dia. Estava na hora de ir embora e ele a acompanhou até em casa, juntamente às irmãs. No portão, veio o primeiro beijo, imortalizando o momento. O gosto dos lábios se tocando e o cheiro que pairava no ar lhe voltavam à mente sempre que Lucília revivia a cena. Tal beijo lhe rendeu um mês inteiro de castigo, mas a relação já estava selada e o prazer valeu por todas as penas posteriores. Na semana seguinte, chega um cartão. Surpreendentemente, acobertada pelas irmãs, o casal se encontrou algumas outras vezes sem que os pais descobrissem. As correspondências secretas continuaram a bate na porta por um longo período. Ao final de todos os cartões, sempre a mesma frase.
"Sinto saudades do gosto de seu beijo e de seu perfume estonteante"...
Certo dia, depois de um longo romance às escondidas, Lucília percebeu estar grávida. O chão sumiu sob seus pés! A tentativa de esconder o bebê tornou-se frustrada em poucas semanas, logo quando o ventre começou a crescer. A verdade chega como um vendaval aos ouvidos do pai, o qual não havia planejado tal futuro. A menina que ele tencionava ser uma freira, tornar-se-ia emancipada, com uma criança de colo, maculando o sobrenome da família. Fora expulsa imediatamente de casa, mas o amor de seu futuro marido superou as expectativas. Ele, que tinha uma carreira brilhante pela frente na empresa do pai, largou o emprego para constituir sua nova família, com a esposa e a filha que chegaria. O destino de um, seria o destino de todos.
Inicialmente, os sogros, sempre ternos e prestativos, acolheram a nora e o bebê em sua própria casa, onde moravam com o filho. Após o parto, o casal oficializou a relação perante a Igreja e a família Furtado Leiva passou a encarar a sina de sua filha fora do convento com outros olhos. Aos poucos construíram sua própria casa, deixando o velho e acolhedor leito maternal. Mais alguns anos, o senhor Furtado completou sua jornada, durante uma indizível noite de bons sonhos. Eu particularmente também preferiria morrer assim, pleno e plácido, mas infelizmente meu ramo de trabalho me impede. A progenitora do casal cresceu, deu seus primeiros passos e recebeu novos irmãos. Mais uma família consolidada. Enquanto Lucília cuidava da casa e da filha, seu marido retomou o posto na empresa. Não tardou, suas irmãs também se casaram e os sobrinhos vieram aos montes. A felicidade parece finalmente ter batido em sua porta, mas para Lucília, o tempo não pára! Hoje tenho com ela um encontro sem convites prévios.


Aquela que nesse instante se despede, A Ceifadora.


Pedro Henrique Santiago Lima
Descoberto, 17 de maio de 2009

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Enigmático Livro Da Esfinge


Estou trabalhando no meu primeiro livro, o qual será um romance épico, mescla de aventura, mistério e fantasia. Pretendo contar a história de uma jovem (talvez seja um garoto, não me decidi ainda...) que aos 14 anos foge de casa, evitando assim ter de contar o segredo mortal que lhe fora confiado durante a noite anterior a seus pais. Ao longo de sua jornada, iniciada na Escócia, a garota conhece várias pessoas, faz diversos amigos, sofre provações e passa por diversas aventuras misteriosas e mágicas, sempre na companhia de uma enciclopédia antiga, encontrada no antigo baú na casa de campo de sua avó. Maravilhosamente, o livro lhe será de grande utilidade durante essa jornada, lhe dando, mesmo que sob a forma de charadas, as respostas exatas na hora em que ela mais precisar. A idéia central dessa história me veio a poucos dias, quando eu refletia sobre o poder que eu sempre atribui aos livros, pois ao longo da história humana, através de um argumento sólido ou uma boa falácia, escritores conseguiram mover montanhas e comover multidões. Cabeças já rolaram devido a histórias mal-contadas ou tão bem contadas que até hoje persistem (atire a primeira pedra quem nunca leu a Bíblia...). Sempre gostei de ler muito e, como minha própria mãe já afirmou, eu era "piolho de biblioteca". Espero que minha história agrade a todos, mas principalmente agrade aos que, assim como eu quando criança, sonhavam em trabalhar na biblioteca da escola. Não tenho todo o roteiro planejado, mas espero que o trecho a seguir demonstre um pouco da aura que eu desejo transmitir com minha obra... Bon appetit!
"Enquanto o trem serpenteia pelo vale, afastando-se cada vez mais rápido de Aberdeen, pelas vidraças do vagão Marie avista as mudanças na paisagem. À frente, a turva imagem citadina, com seus carros acelerados e seus moradores esquizofrênicos, cede espaço a escuros e impenetráveis bosques de pinheiros que pairam sobre as montanhas. O céu enfumaçado pelas fábricas é substituído pelo azul cobalto do final da tarde, com rotundas e cinzentas nuvens feitas de algodão. Em breve, viria a chuva... O vento gelado de outubro corta a charneca e penetra pelo vagão, forçando-lhe vestir sua pelerine e indicando que o inverno está próximo. A meia distância dos trilhos, as águas correm pelo rio seguindo sem rumo em cascata e, além da cerca de madeira, belas ovelhas pastam no campo e pintam de branco a grama dourada como centeio, sob a luz do fraco sol poente que, bem ao longe no oeste, se esconde por trás das montanhas cobertas pela neblina. Avistando a paisagem pela janela, Marie tenta, de forma frustrada, afastar de sua mente as imagens da noite anterior. Uma lágrima escorre por sua face. Apenas uma. Afinal, não há nada mais cativante do que uma longa viagem de trem..."
Pedro Henrique Santiago Lima
Descoberto, 21 de julho de 2009