Mostrando postagens com marcador Contemporaneidade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contemporaneidade. Mostrar todas as postagens

domingo, 13 de setembro de 2009

Considerações Sobre O Século XX


Industrialização, capitalismo, comunistas, megacidades, cinema, automóveis, mulheres de cabelos e vestidos cada vez mais curtos, trabalhando, estudando, exigindo igualdade entre os sexos, rádios, discos, revolução, crise financeira, exploração intensiva da mão-de-obra, anarquismo, aviões, guerras mundiais, eletricidade, degradação ambiental, fome, segregação social, arranha-céus. Não há registros ou indícios de que em algum outro momento de sua história, o homem tenha feito tantas descobertas científicas, provocado tantos avanços tecnológicos e quebrado tantos dogmas quanto no século passado. Tudo isso, devido ao grandioso desenvolvimento da educação universitária, ao progresso econômico mundial e ao incentivo dos governos e de certas empresas privadas, desde o século XIX.
A começar pela Teoria da Relatividade de Albert Einstein, a Física Moderna nasceu no século XX. Através de sua teoria, Eistein mostra que "Não existe um tempo absoluto nem um espaço absoluto, pois ambos dependem da velocidade do observador" e explica que "A menor distância entre dois pontos, portanto, não seria um segmento de reta". Com suas afirmações, Einstein vai de encontro a uma série de concepções vistas como legítimas até então, gerando na mente das pessoas uma dúvida e um conflito de ideologias que acabam por caracterizar todo o século.
De modo geral, o século XX é marcado por constantes e profundas mudanças que refletiram no setor econômico, político e social do mundo inteiro, rompendo definitivamente com os padrões do passado. Progresso e velocidade são palavras de ordem do período. Nunca  se presenciou tão grande avalanche de informações, úteis ou dispensáveis, regurgitadas pelos mais diversos veículos de comunicação em massa. Devido à descoberta de novos meios de transporte e comunicação e ao aprimoramento dos já existentes, observa-se de forma intensa a circulação de pessoas, empresas, capital e ideologias que, abandonam a dimensão nacional para alcançarem o globo.
Sabiamente, o já findado século fora certa vez caracterizado como esquizofrênico pelo cineasta Marcelo Mazagão. Todavia, o que melhor caracteriza a loucura do período não é a intensidade do progresso vivido pelas pessoas naquele momento, mas sim a dualidade que tal progresso gerou. O mesmo século marcado pelas campanhas de vacinação em massa e pelo consequente  extermínio de diversas epidemias é o que assinala também o aparecimento dos primeiros casos de aids. Não é sádico pensar que o século em que ocorreram as primeiras operações de catarata é o mesmo em que a cegueira se fez mais presente? Não a cegueira física, mas a cegueira social, aquela que nos impede de enxergar as patologias urbanas modernas, aquela que nos leva, por exemplo, a sentir ojeriza ao invés de compaixão ao vermos um mendigo doente e imundo numa calçada. Bombas atômicas são lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki e, logo após, a ONU é fundada. Hipocrisia humana ou ironia do destino?
Em 1900, no último ano do século XIX, Sigmund Freud lança as bases para os primeiros estudos da mente humana, como se estivesse premeditando todas as mudanças comportamentais que ocorreriam ao longo do século seguinte. Ao mesmo tempo que o progresso científico e tecnológico proporcionou uma boa condição de vida para grande parcela da população, o homem nunca esteve tão frustrado e reprimido. Nunca as academias de ginástica estiveram tão cheias, os divãs tão ocupados e as livrarias tão vazias. Em busca do corpo perfeito, adotado como padrão pela mídia, as pessoas se esquecem de exercitar a mente e abdicam da filosofia do "corpo são em mente sã". No entanto, quem determina o que a mídia adotará como padrão?! Talvez sejam nossos antepassados os responsáveis por isso, pois num momento de outrora, começaram a se submeter ao ideal estético adotado no cinema e na televisão, dando origem ao presente ciclo vicioso. Todavia, é de grande comodidade e conveniência colocar a culpa de nossos problemas sobre aqueles que estão ausentes e excluir de nossos ombros o peso da responsabilidade em agir contra a (des)ordem vigente.
Se considerarmos que a arte surge em resposta à frustração do artista, podemos dizer que a pintura e a literatura do século XX se origina numa busca incessante por caminhos alternativos às questões oriundas com o progresso do período. Movimentos artísticos vanguardistas, em concordância com as teorias e ideais do século, anulam de vez a arte do passado. As vanguardas europeias, por exemplo, formaram um conjunto de tendências artísticas de vários países com propostas diversas, mas que, de modo geral, aboliam a arte do século XIX, impressionista e parnasiana. Tais vanguardas serviram de base aos artístas brasileiros que organizaram a Semana De Arte Moderna De São Paulo, revolucionando as manifestações artísticas do país e dando início ao movimento modernista. Em ressonância das revoluções ocorridas no momento, decorre a emancipação feminina. Mais autônoma e menos submissa, a mulher, passo a passo, alcança o mercado de trabalho, abandonando sua função primordial de administradora do lar.
Para se chegar à concepção da roda, o homem levou milhares de anos. Outros milhares de anos decorreram até que se chegasse a uma forma satisfatória de escrita. Todavia, foram necessários apenas meio século para que o primeiro computador, o qual ocupava três andares de um prédio, chegasse ao tamanho de um notebook. Calcula-se que no século XX o homem tenha vivido um progresso científico e tecnológico maior do que o ocorrido nos dezenove séculos anteriores. Isso sem considerarmos o advento dos telefones celulares, hoje classificados quase como objetos descartáveis. Diante de tais dados, os mais fiéis são acometidos pela sensação de que o homem, nos últimos tempos, esteve brincando de ser Deus. Os mais antigos geralmente são tomados pela ideia de que sua infância decorreu-se em alguma civilização do passado longínquo, entre gregos e romanos, condição inicial para o atual exacerbo do movimento nostálgico. Paralelamente, os otimistas profetizam para os próximos anos a cura da aids, a descoberta da máquina do tempo, a criação da capa de invisibilidade e a chegada do homem a Marte.
A grande dúvida é com relação ao futuro da humanidade, todavia. Estaremos aqui ainda por muito tempo, planejando o futuro em análise do presente? As máquinas criadas pelo homem foram capazes de torná-lo o ser mais bem adaptado da Terra, dominando todos os continentes e explorando todos os recursos disponíveis, mas, ao invés de uma adaptação positiva, ao longo dos dois milênios que sucederam ao nascimento de Cristo, a humanidade tem se provado cada vez mais como um flagelo implacável. Será o homem capaz de estabelecer uma relação de cooperação com o espaço em que habita ou sua existência acarretará na destruição do planeta?


Pedro Henrique Santiago Lima
São João Nepomuceno, 14 de abril de 2009

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Chega De Saudade


É com grande fervor e convicção que minha avó, assim como a maioria das avós, exclama: “Quando eu era jovem isso não acontecia!”, ou, “Na minha época isso era inadmissível!”, e ainda, de forma verdadeiramente acaciana, “Os tempos mudaram, pois nada mais é como antes...”. Frases que denigrem a imagem da atualidade sempre são proferidas ferinamente pela boca de idosos. Entretanto, é cada vez mais frequente ouvir tais ultrajes sendo ditos por pais, tios e até alguns irmãos primogênitos. Pessoas nem tão velhas, mas que, num espírito nostálgico, não se contentando em relembrar os velhos tempos, insultam de todas as formas a nossa geração e essa década que nós, jovens, estamos construindo.
Contudo, uma onda que já existia há alguns anos tomou impulso e começa a destacar-se de forma estrondosa. Consiste em uma vertente saudosa que, num ato impetuoso, já não se preocupa apenas em maldizer a contemporaneidade, mas sim em agir, numa frente de busca incessante por transformar o hoje em ontem.
Tornou-se habitual a aparição nas livrarias de exemplares em honra ao passado. Primeiro vieram os tão aclamados “Almanaque Anos 70” e “Almanaque Anos 80”. Mas a indústria seguiu explorando o filão: já estão nas prateleiras almanaques dedicados ao Fusca, à Jovem Guarda, aos anos 50 e, para assombro de alguns, aos recentíssimos anos 90 também. Livros semelhantes surgem repentinamente, em questão de dias. Existe até almanaque em homenagem aos produtos que já não se vendem mais, como a intragável Emulsão de Scott, odiada pelas crianças de outrora. A nostalgia tornou-se uma indústria e não se limita aos livros. Várias bandas têm ressurgido das cinzas para lucrar com os saudosos. Há festa e shows promovendo o revival dos anos 80, 70, 60 e, é claro que, para ir a um desses eventos, o nostálgico consumidor precisa vestir-se como manda o figurino, desenterrando hediondas ombreiras, calças bocas de sino ou, ainda, polícromas sandálias plataforma. Tudo com os floreios e a extravagância de cada época.
O saudosismo parece ser um sentimento proeminente nesses tempos velozes em que o mundo foi da Guerra Fria à globalização e em que a tecnologia evoluiu da máquina de escrever ao notebook, ou melhor, ao palmtop. Com um processo evolutivo tão rápido, quem tem mais de 30 anos pode ser acometido pela sensação de que sua infância ocorreu em alguma civilização ancestral, entre sumérios ou hititas. É daí que nascem os cultores do retrô, a turma que decora a casa com telefones antigos e usa seus computadores de último tipo para jogar Spacer InvadersTétris ou Pacman. Ao lado do pessoal retrô que, ironicamente, se considera muito moderno, há o nostálgico mais tradicional. Em sua idealização do passado, esse utópico esquece que a catástrofe contemporânea não é muito maior que a tragédia de 20 anos atrás.
Só para se ter uma ideia de como era a calamidade desse passado tão revivido por alguns, deve-se mencionar que, foram nos anos 60 quando se instaurou a ditadura militar brasileira e a Revolução Cultural chinesa. Foram tempos hostis, onde se passaram a Guerra do Vietnã e a construção do Muro de Berlim, símbolos do autoritarismo comunista. Essa foi também a década dos hippies e sua pisada ideologia de “Paz e amor!”. Precisa dizer mais?...
Nos anos 70, para se conseguir um telefone (fixo, é claro) o brasileiro aguardava anos até a disponibilidade de uma linha. A Revolução Islâmica foi o marco da ascensão fundamentalista na arena 
internacional, fato que ainda dá dor de cabeça a muitos povos, principalmente, aos norte-americanos. Das calças pantalonas aos ternos com lapela hipertrofiada e gravatas largas, a moda da década foi a mais estrambóticamulticolorida e feia de toda a história.
aids fez história nos anos 80, quando foi descoberta. Nessa época o dinheiro brasileiro não valia nada e a moeda nacional já havia mudado diversas vezes. Xuxa engrenou sua carreira de ídolo infantil, abrindo as portas para várias outras apresentadoras loiras com trilha sonora esganiçada e que macaqueiam voz de nenê. Felizmente, fora a própria Xuxa, que ainda está no ar com seu programa infanto-irritante, nenhuma das outras apresentadoras continua nessa carreira. Com suas ombreiras, tecidos colantes e polainas, a moda dessa década teria sido a pior da história, se antes não tivesse havido os anos 70.
A memória é que 
edulcora os fatos, a ponto de o sujeito achar que até o ar era mais puro no tempo em que seus pais empesteavam a casa com inseticida Flit, outro dos produtos do qual muitos também devem sentir saudade... Esse passadismo militante tem raízes profundas no sentimentalismo lusitano. Hoje, como na há mais um Camões para cantar o império que se foi em versos heróicos ou um Casimiro de Abreu para chorar a infância perdida, cabe a alguns escritores oportunistas manterem a tocha da saudade acesa, através de suas obras maçantes.
Os almanaques com suas abrangentes 
coleções e sem critério de bobagens das décadas passadas são produtos feitos sob medida para a turma retrô. Todavia, a nostalgia não serve ao entendimento histórico. É, afinal, um sentimento conservador, incapaz de lançar uma luz original sobre o passado. Dizem que “a dignidade da moda está em seu caráter efêmero. Tal ditado serve perfeitamente para caracterizar a presente onda nostálgica. Ao recuperarmos baboseiras pop como as minigarrafas de Coca-Cola, bonecas das eternas Moranguinho e Hello Kitty, sem falar das liliputianas fofoletes, dos personagens da Vila Sésamo e do imortalizado Fofão, além de almanaques e outros produtos do gênero, que fazem mais sucesso entre adultos do que entre crianças, roubamos a dignidade da moda passada e a inteligência da época atual.
O melhor e mais prudente seria que deixassem-nos viver nossa década à nossa moda, ou daqui a 10 anos, quando um escritor oportunista lançar o
“Almanaque 00”, talvez só reste concluir que a presente década foi perdida em revivals.


Pedro Henrique Santiago Lima
Descoberto, 15 de março de 2007.