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domingo, 6 de setembro de 2009

Menino Do Rio

Essa história que vou contar
É difícil de acreditar,
Mas se alguém de mim duvidar
Basta perguntar pelo Julião,
Lá nas terras de além-mar.

Julião era um menino franzino,
Vivia de cabeça baixa.
Tinha os olhos sempre lacrimejantes
E nunca dava um mero sorriso...
Sei que não tenho nada com isso,
Mas com Julião eu me preocupava,
Pois sempre que ele chorava
Um rio de suas lágrimas surgia.

A sorte de nosso povo
Era por ele ser bastante forte.
Não chorava por um puxão de orelha
Nem por um soco que levava.
O problema é que ele chorava
Quando via fome, miséria e poluição.
Quando via morte, doença e destruição.

Julião era um menino bondoso,
De coração solidário.
Só de ver alguma injustiça acontecer,
Abria a boca a berrar.
Longas cascatas desciam de seus olhos,
Varrendo toda a cidade
E, com ela, toda a maldade.

Um dia quando assistiu na televisão
A guerra que acontecia no Capão
Julião não se aguentou.
Vendo tanta morte,
Tanta perversidade,
Tanta injustiça!
Abriu a boca a chorar...

Suas lágrimas lavavam a terra,
Nutrindo plantas, alimentando regatos.
Seu choro de enxurrada
Levava tudo por onde passava.
Franzino menino,
Gigantescas ondas.
A água escorria à saraivada de seus olhos.
Seus berros criavam raios
E os soluços eram trovões.

Foram quarenta dias e quarenta noites de choro,
Quando Julião cessou seu pranto.
No instante em que abriu seus olhos
Nada viu, nada restara.
Somente ele,
Sentado numa estranha canoa,
Ao sabor da corrente que de seus olhos surgiu.
Pedro Henrique Santiago Lima
Descoberto, 21 de agosto de 2006

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Verde Que Te Quero Verde

A floresta Amazônica é a maior floresta tropical do mundo, abrangendo terras brasileiras e de vários países sulamericanos. Transpassados pela maior bacia hidrográfica do planeta, os ecossistemas amazônicos apresentam elevada biodiversidade, em parte ainda não catalogada, incluindo inúmeras espécies endêmicas tanto da flora quanto da fauna regional. O clima quente e úmido da floresta, a rica hidrografia e a evapotranspiração contínua da vegetação são responsáveis pela formação de massas de ar que interferem no clima de grande parte do país durante o verão, transportando o calor e a umidade necessários ao abastecimento da bacia do Prata, onde estão localizadas as usinas que geram energia usada nas principais cidades do Centro-Sul do país. De fato, a vastidão da floresta e o papel fundamental que ela desempenha na sociedade nortista brasileira, como fonte de renda e matéria-prima à população local, garantindo a sobrevivência de inúmeras populações ribeirinhas e tribos indígenas, são o bastante para ela ser considerada, mesmo de forma errônea, como o pulmão do mundo.
Para a Amazônia continuar desempenhando sua função social e econômica no Brasil e demais países que a abrigam, todavia, é essencial a implantação de medidas que invertam a atual situação de desmatamento e exploração descontrolados. A biodiversidade regional, a abundância de rios e o intricado mecanismo climático amazônico fazem sua preservação se tornar essencial. Grande parte da devastação florestal deve-se a atuação de madeireiros e empresários do agronegócio, os quais se beneficiam da debilidade dos órgãos de fiscalização e do caráter dúbio daqueles que trabalham no sistema judiciário brasileiro, apropriando-se de terras pertencentes a reservas ambientais ou tribos indígenas.
Levando-se em conta a extensão territorial da região, para cada lugar faz-se necessária a implantação de medidas diferentes, uma vez que, cada localidade possui sua própria população, com características peculiares, e encontra-se num grau maior ou menor de degradação, apresentando suas limitações.
Medidas drásticas, como a suspensão completa e imediata do desmatamento, permanecendo proibido até serem identificadas áreas onde explorar de forma sustentável, deveriam ser aplicadas nas regiões em que a floresta já fora extremamente devastada, visando à obtenção de resultados positivos a curto prazo. O Estado arcaria com as despesas da quebra dos contratos já pré-estabelecidos entre as madeireiras e as indústrias, evitando um possível colapso no setor extrativista, enquanto certas regiões mais conservadas continuariam a ser exploradas, de forma bastante controlada e realizando-se o reflorestamento, até ser encontrada alternativa à madeira amazônica, evitando exploração onerosa dos demais biomas brasileiros e escassez de matéria-prima no mercado.
Ao ser completamente proibida a extração madeireira na Amazônia, caberia também ao Estado amparar as famílias que vivem do extrativismo, pelo fornecimento de emprego ou pela distribuição de renda, até o momento em que fossem detectadas áreas à exploração sustentável, quando as famílias poderiam retornar às suas atividades extrativistas. Como forma de assegurar a abolição do desmatamento, faz-se necessário o aumento da fiscalização, paralelamente à modernização dos órgãos de defesa do meio ambiente e do estatuto ambiental brasileiro, regularizando as leis que tangem sobre a aplicação de multas e penalidade ao infrator.
A ação conjunta entre Estado, sociedade e setor produtivo também é trivial para que haja êxito ao se acabar com o desmatamento. O Estado se tornaria responsável pela implementação de programas que incentivem a preservação biótica e aplicação de verbas em pesquisas com novas tecnologias que visem diminuir os impactos do desmatamento. Ao setor produtivo é reservado a função de se adequar às variadas formas de extrativismo o quanto menos degradantes e compatíveis às necessidades do mercado. Finalmente, à sociedade cabe o papel de manifestar-se publicamente, cobrando de seus representantes investimentos em projetos de desenvolvimento econômico-social na Amazônia, os quais busquem diminuir as disparidades entre o Norte e o Centro-Sul do país, respeitando-se sempre a cultura e os direitos das diversas tribos indígenas e da sociedade local.
Pedro Henrique Santiago Lima
Descoberto, 18 de agosto de 2009.